Grand Temple

Máquina de Escrever

Nossa, Videojogos, que Biolencia!

Posted on August 18, 2013 at 12:50 PM

 

 

 

 

 

 Nunca pensei ter que escrever o meu ponto de vista quanto a esta questão dos videojogos que tornam as crianças violentas. Também não é que eu tenha de escrever pois não sou nenhum psicólogo como os ilustres analistas da TVI. Eu sou apenas um mero realizador de cinema, ou pelo menos aspirante. Porém, mesmo sendo cinema a minha primeira paixão (em termos de hobbys Amor, em termos de hobbys), os videojogos estão em grande razia num intacto segundo lugar. Eu jogo há mais de 20 anos, tendo começado pela saudosa MegaDrive à [até agora] recente PlayStation 3. Passei, tanto quanto pude, os meus verões e restantes férias fechado em casa a jogar. Também brinquei lá fora, ainda apanhei esse tempo, mas quem desvaloriza o conforto de estar na nossa habitação a jogar numa tarde pacata não entende tudo sobre a infância. Das melhores recordações que tenho além de jogar à bola e deixar quase todas entrarem na baliza é de jogar horas e horas com o meu irmão ou com o meu vizinho e, quando possível, em casa de outros amigos. Hoje, tal como os maiores dos adultos que dizem “epa, lembras-te de jogar ao pião?”, dizemos nós coisas como “epa, lembras-te do medo que metia abrir a porta da entrada da mansão do primeiro Resident Evil? Borrava-me todo e agora vendo os gráficos só dá vontade de rir!” num eterno espírito de companheirismo.

Obviamente, de acordo como funciona o mundo de hoje em dia, as redes sociais entraram em alarido quando a TVI mostrou reportagens e teses que ditam (não opinam, ditam, é a palavra-chave aqui) que os videojogos promovem um comportamento violento nas crianças. Como era de se esperar, os utilizadores formam um em dois partidos extremistas possíveis. Sempre, sempre extremistas. Com isso ri-me e bati com a cabeça nas paredes cá de casa ao ler vários comentários ignorantes. É importante relembrar o verdadeiro sentido da palavra ignorante; não disse idiota, disse ignorante, de não saber do que fala por não estar dentro do assunto e de não querer tentar descobrir mas achando que mantém uma posição que, além de válida, é absoluta. Ou o chamado “comportamento de pais”, como eu prefiro.

Os videojogos ainda são, quer nos tentemos enganar ou não, um passatempo visto para crianças. Ainda no outro dia a minha tia velhota disse: “como é que com a idade e altura que tens ainda gostas de jogar a essas coisas, pareces uma criança!” enquanto eu arrancava um osso do monstro e o espetava na goela. Sejamos sinceros, ver filmes sobre pancadaria é aceite pela sociedade como uma actividade legitima mas controlar uma personagem que participa em pancadaria e onde o desfecho irá depender inteiramente das nossas acções e perícias, é entendido como uma brincadeira para crianças que por ser violenta deve ser abolida imediatamente do país! E, sejamos também sinceros, a sociedade é tanto a melhor coisa sobre a humanidade como é a pior. Além da ignorância, aí sim, há imensa, imensa idiotice.

Os tais psicólogos têm como apoio uma espécie qualquer de diploma a trabalhar em seu favor. Eu tenho mais de 20 anos de experiência na área que eles debatem. Conheço muitíssimo bem este mundo dos jogos e os seus paralelos. Joguei toda a vida, ainda jogo horas e horas (embora cada vez tenha menos horas livres), vi e tenho imensos amigos que como eu jogam horas, às até mais tarde do que eu, e todos, mas todos os dias leio e vejo artigos escritos ou filmados sobre a matéria. Há maiores sabichões do que eu, sem dúvida, mas quero só deixar aqui o meu currículo antes de prosseguir para ver se consigo alguma forma de pé de igualdade.

Comecemos então a instruir.

 

“Os videojogos são violentos!”

Não, não são. videojogos violentos, tanto como videojogos sem qualquer espécie de violência. Há jogos onde o jogador pode matar pessoas de variadas formas assim como há jogos de Formula 1, jogos de Futebol, jogos de Golfe, jogos em que se tem uma quinta e pede-se aos amigos para enviarem cenouras. Ah, é verdade, muitas das pessoas que criticaram os videojogos de serem violentos são com certeza as mesmas que passaram, e provavelmente ainda passam, horas a fio a comprarem a escolherem em que posição o porco fica para os amigos irem à quinta e verem tudo bonito. Tremenda violência!

Ninguém nega que há jogos extraordinariamente violentos. O mais conhecido há de ser o GTA, o tal jogo em que se rouba carros e foge-se à polícia atropelando toda a gente. Mal sabem os pais que também dá para ir a clubes de strip ou apanhar prostitutas, fazer sexo com elas dentro do carro e no final matá-las para ficar com o nosso dinheiro e o restante que ela iria eventualmente dar ao chulo, provavelmente o Big Smoke. Mal sabem também os pais que há jogos em que isso nem é nada. Se quiserem conhecer maiores horrores, pesquisem sobre o jogo Manhunt. Só joguei o 2 e mal comecei a jogar levei logo com excrementos na cara, o que no fundo acaba por ser uma excelente metáfora sobre a vida. E esse também ainda nem é nada.

A questão é: há tanta violência como há em filmes. Aliás, no filmes ainda há maior violência não só por não estarmos a ver polígonos mas sim pessoas reais. Filmes como Salo ou A Serbian Film (peço que não pesquisem. Eu sei que por ter dito isto irão pesquisar mas.. não o façam) são pedaços de celuloide que nem mesmo os estômagos mais fortes se atrevem. Pelo menos os estômagos mais fortes e mais sábios, não os estômagos que querem espantar os amigos por serem capazes de se rirem com filmes como o Exorcista. Já agora, também há o filme O Exorcista. Devemos agora banir toda a indústria dos filmes só por há filmes incrivelmente violentos? Não, claro que não. Porquê? Por causa do próximo ponto.


violência





“Os videojogos violentos são de fácil acesso às nossas criancinhas.”

Esta é muito gira. Pegando exactamente no exemplo dos filmes, o que fazemos quando está a dar a Laranja Mecânica na RTP1? Dizemos às crianças para saírem da sala que isto não são filmes para a idade delas! Com os videojogos funciona da mesma forma. Existe na capa e até na contra-capa, bem visível, a faixa etária recomendada pelos departamentos oficiais desse regime. Não é um bicho de sete cabeças, se eles pedem o GTA, dizem que não. É só dizerem que não. Não é feito ás três pancadas, há um sistema próprio para os pais saberem rapidamente se é aconselhável ou não que os filhos joguem determinado título. E há sempre a internet para informação mais detalhada, bem como funcionários na loja capazes de esclarecem esse tipo de dúvidas. É claro que as crianças, como em tudo, conseguem dar a volta e nas costas dos pais conseguem obter o que querem. Quanto a isso:




 

As crianças não são assim tão estúpidas como as fazem.

Se eu visse em criança um filme onde um soldado mata a tiro um alien, eu sei que os aliens não existem. Entendo, além disso, que o soldado está a fazê-lo para sobreviver e salvar a casa branca e o presidente e, se houver tempo, o resto dos habitantes também.

As crianças conseguem distinguir o que é real e o que é errado. Não confundam só porque elas erram de vez em quando e se portam mal, isso é porque… bem, são crianças. Mas à partida sabem que não devem andar por aí com armas a matarem pessoas. Primeiro têm que conseguir obter a licença de porte de arma.

O melhor exemplo que eu posso dar é este:

Eu estava na primária quando arranjei um jogo para a PlayStation chamado Thrill Kill. Thrill Kill é um jogo tão grotesco e tão violento que.. nunca chegou a ser feito. Nunca foi vendido, nunca foi terminado. Eu consegui uma cópia do jogo por acabar e já dava para ter uma bela ideia. Era um jogo de luta, 1 contra 1 ou 4 contra 4, onde se podia arrancar membros de forma exageradamente grotesca. Sangue era coisa que não faltava e as personagens ião de um médico assassino que adorava destripar e espetar seringas a um canibal que passava o jogo todo a comer uma perna de outra pessoa e batia com essa mesma. E acreditem, estou a deixar de parte os detalhes mais pesados. Na altura, lembrem-se, os gráficos pareciam muito realistas e volto a lembrar que eu estava na primária.



 Yeah... we've come a long way...



Como foi o meu crescimento? Tive grandes notas, grandes amigos e ando a ter aos poucos uma carreira com sucessos aqui e ali. Sou saudável e tenho uma relação social perfeita, além de uma namorada espectacular.

Quando vi pela primeira vez o Jurassic Park, sendo ainda mais novo, meteu-me imensa impressão a parte em que o T-Rex come o advogado. Hoje em dia é uma imagem que todos nós adoramos ver pela justiça que é mas na altura parecia-me ser uma coisa feita a sério, esqueci-me que era um filme por breves instantes! O meu pai disse-me logo, a sorrir: “aquilo é um boneco!” E sempre que vejo a cena, lembro-me sempre do que o meu pai me disse. Lembrem-se deste parágrafo por vai ser importante para o ponto final. Mas antes:




 

“Os videojogos não educam nada!”

Uma vez mais, pura, pura ignorância. Na mesma tarde em que a minha tia me disse aquilo, ela disse-me essa mesma frase. Ou parecida. Mais tarde, eu meti o jogo Buzz, que é uma espécie de concurso com perguntas como os que dão na televisão. Tem até a voz do Jorge Gabriel. Quis provar um ponto nessa tarde e consegui. Não só a minha tia viu que nem todos os jogos eram violentos ou EXCLUSIVAMENTE para crianças como ainda esteve ela a responder algumas perguntas e, inclusive, a acertar!


Nop, não educa



Além de que os jogos são excelentes para desenvolverem a concentração e os reflexos das crianças, bem como a imaginação. Há estudos que comprovam isto mas eu quero que os estudos se lixem pois eu estou a falar por experiência pessoal. Tenho óptimos reflexos, tenho e sempre tive uma óptima imaginação ao ponto de estar numa industria criativa e concentro-me tão bem ao ponto de as pessoas estarem a falar ao pé de mim e eu continuar na minha actividade como se estivesse numa bolha. Os videojogos estiveram constantemente a estimular a minha criatividade e os meus reflexos. E é isso que os jogos são. Jogar, seja o que for, não é simplesmente matar coisas. Até porque não há nada vivo, é tudo virtual mas enfim. Os jogos são, desde o GTA aos puzzles de 1000 peças, desafios.

O jogo cria um cenário virtual e distribui opções para o solucionar. Cabe ao jogador escolher o que utilizar e como de forma a alcançar o objectivo e prosseguir. Não só ensina aos miúdos que se querem alguma coisa têm que se esforçar como ainda os ensina a serem pacientes. A ideia de “morrerem” ensina que falharam mas que podem tentar outra vez. Não conseguirão avançar até conseguirem fazer tudo bem e por mais que atirem o comando para o chão e que gritem palavras menos bonitas… não tiveram o que queriam até respirarem fundo e tentarem uma vez mais. Através da persistência e de melhores cálculos sobre o que fazerem e quando fazerem, eventualmente acabam por superar o desafio e prosseguir para o próximo até acabarem o jogo e sentirem-se vencedores.

Os pais só vêm o miúdo sentado e acham que não está a fazer nada. Se ele tivesse montado um puzzle, ao menos viam que passou o tempo a construir algo e que pode agora pôr na parede. Mas acreditem, aquele miúdo esteve a viver uma aventura. Empunhou uma espada e salvou a princesa de um dragão, tal como nos livros que outrora havia lido. Passou um bom bocado, divertiu-se, solucionou puzzles dentro do jogo e conseguiu o objectivo que quis e pelo qual tanto lutou. Não há nada que possa mostrar mas irá dormir a pensar na aventura e a ansiar por mais que tem na prateleira à espera dele, dentro de um mero CD. Irá ouvir constantemente que não esteve a fazer nada e que devia ter aproveitado melhor o tempo. Mas cedo aprende que ninguém que não tenha feito o mesmo irá compreender.



“Os videojogos irão atrofiar os relacionamentos pois passam o tempo sozinhos e fechados”.

Como eu já disse, não só eu tenho relacionamentos perfeitamente saudáveis como tenho grandes memórias das tardes que passei a jogar com a minha família e com os meus amigos. É tão, ou melhor, convivência que ver um jogo de futebol na tasca com eles a beber cerveja. Há diversão e há competição/cooperação. Estar com um comando nas mãos ou com cartas é exactamente o mesmo objectivo.



 

“Maldito sejas Uno que por causa de ti eu estou a viver sozinho e sem amigos por não se afeiçoarem à minha personalidade pouco complexa!”




“O problema dos videojogos é que passam o tempo sentados”

Concordo, devíamos fazer como as pessoas que lêem livros, a correr.

Isto é um óbvio ataque às horas que por vezes são passadas a jogar. É verdade que é preferível que esteja lá fora a jogar à bola mas o problema não são dos videojogos. O problema são dos pais que não controlam os horários dos filhos para jogarem, para estudarem, para irem lá fora.

E por falar em pais.



“Os videojogos fazem das crianças violentas.”

Matar coisas em jogos não chateia crianças nem faz com que elas esmurrem armários com fúria. O que as leva a fazer isso são os seus pais a discutirem todas as noites. São os seus pais que não ligam nenhuma aos filhos. São os seus pais que não acompanham o crescimento. O meu pai disse-me que aquela coisa horrível era apenas um boneco. Se os pais explicarem devidamente aos filhos que aquilo que vêem não é real, que é só um filme ou só um jogo, a criança depressa aprende o que é um filme e o que é um jogo, que nada passa de figuras de estilo. Seja lá o que figuras de estilo sejam, isso fica para mais tarde.

Não são os videojogos que fazem das crianças violentas. São os pais. É a educação que têm.



 

E como um bónus:



“Os videojogos são como drogas.”

Este foi o comentário mais parvo que eu li e veio do próprio psicólogo. E eu podia responder a esta de mil e três formas mas escolho esta:

Há pessoas que lêem um livro inteiro num dia. Há pessoas que lêem livros gigantes numa semana. Há pessoas que lêem vários livros gigantes numa semana. Há, porque eu conheço bastantes. É como drogarem-se? É algo mal visto? Não, é visto como uma pessoa culta. Uma pessoa que vê filmes todos os dias é culto mas aí já depende dos filmes. Uma pessoa que joga todos os dias já é comparado a um drogado.

Portanto, estão a comparar uma pessoa que decide divertir-se à sua maneira sem incomodar ninguém… a um drogado que está rapidamente a acabar com a própria vida. Uma pessoa é tão viciada por querer voltar a jogar tal como uma pessoa deseja chegar ao final do livro para saber como acaba. Há quem passe tempo na internet a vadiar e há quem decida jogar e estimular o cérebro.

 

Os comentários continuam mas por agora espero que quem tenha lido tenha percebido melhor como é que os jogos funcionam vindo de alguém que sabe o que é um jogo. A parte mais hilariante disto é saber que mais de metade das pessoas que falam mal dos jogos estão enfiadas no Farmville.

E à semelhança de outras reportagens da TVI sobre jovens, nem tudo o que aparece na televisão, nem tudo o que começa por “um estudo comprova” é verdade. E não sou a única prova contrária a tudo o que foi dito por esse meio.

 

Para terminar, lembrem-se, amigos:

 

Isto vem do mesmo canal que nos esgalha A Casa dos Segredos e o Big Brother. São estes que nos vêm falar de psicologia.

 


 

Categories: Cronicas e Porcarias

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1 Comment

Reply Super Inimigo
5:11 PM on August 18, 2013 
Fica aqui aprovado todo este ponto de vista!

Sendo que vários tipos de entretenimento já passaram pelo mesmo :p

Super Inimigo OUT!!!!!